Absurdo!

Carro apodrece em pátio da polícia e dona recebe carcaça

Luísa Alcalde – Diário de S.Paulo

SÃO PAULO – A auxiliar de enfermagem Maria da Graça Guedes, de 46 anos, tem a carcaça de um Fiat parada na garagem do prédio onde mora, em Diadema, no ABC Paulista, desde 2004, e não sabe o que fazer com ela.

– Não posso vender para o desmanche, botar fogo e nem largá-la por aí – disse.

O que hoje é um incômodo, era a realização de um sonho há cinco anos. Em 10 de janeiro de 2001, ela comprou o veículo de segunda mão. Diz ter pago R$ 1.300 de entrada e financiado os R$ 9.300 restantes. Segundo Maria da Graça, a financeira ficou de mandar os documentos do carro com a transferência de posse para o nome dela em alguns dias. O único comprovante com que ela saiu da loja foi o recibo do valor pago de entrada.

O pesadelo começou 15 dias depois, quando o veículo foi roubado. Enquanto o carro não aparecia, ela diz ter sido insistentemente cobrada pela financeira.

– Levei o boletim de ocorrência para provar que o carro tinha sido roubado, mas mesmo assim ligavam direto no meu emprego para me cobrar. Achavam que eu tinha de sair procurando o veículo – diz ela.

O veículo foi encontrado um ano depois. Ainda estava em bom estado. Na ocasião, Maria da Graça não pôde resgatá-lo porque o delegado que apreendeu o carro determinou que ele fosse levado para um pátio da polícia para passar por perícia, já que os ladrões tinham adulterado o número do chassi.

O automóvel ficou dois anos no pátio mesmo após ter sido periciado. Ela afirma ter gasto cerca de R$ 12 mil com advogados para tentar liberar o Fiat. Nesse tempo, segundo o atual advogado da auxiliar de enfermagem, Carlos Roberto da Silva, o carro foi depenado. Faltam peças, estofados e até o motor. Ela ainda teve que pagar um guincho para levar a carcaça para casa.

Maria da Graça entrou com um processo e, em dezembro, o juiz Edson Ferreira da Silva da 10ª Vara da Fazenda Pública da Capital decidiu que o estado deve arcar com os danos provocados no Fiat durante o tempo em que ficou à disposição da polícia.

Segundo o advogado, ela deve receber cerca de R$ 32 mil de indenização. Mas o estado ainda pode recorrer. Se condenado, levará alguns anos para que a auxiliar de enfermagem receba o dinheiro a que tem direito. Agora, ela ainda briga com a financeira para que a empresa passe o veículo oficialmente para o nome dela.

– Só assim vou poder dar um fim nele. Porque se eu abandoná-lo em algum lugar ainda corro o risco de ser processada por isso – diz.

Antes disso, Maria da Graça ainda vai ser obrigada a gastar um pouco mais para pagar o que deve de IPVA para o Detran durante o tempo que o automóvel ficou parado no pátio.

– São mais R$ 1.600. Não agüento mais gastar dinheiro com essa história. Agora só quero me ver livre dessa carcaça – diz desgostosa.

Fonte: Jornal O Globo