Acampamento numa barraca muito legal!

Nessa época do ano é clássico ter umas ventanias bizarras por aqui e quando disseram na TV que a tempestada que estava chegando ia ser pior do que uma em 1993, eu senti um arrepio na espinha. Eu não estava presente no tal inauguration day storm há 13 anos atrás, mas se vai ser pior do que outras tempestades de vento que eu vivi desde 2001, então o negócio não ía ser bom não.

Considerando-se que os furacões categoria 1 tem ventos de 74 a 95 milhas por hora, o que nós experimentamos aqui só foi chamda de tempestade violenta por questões estruturais. Na minha cidade, a máxima marcada foi 70 mph mas com pancadas de 90. Em outros lugares foi bem pior. Durante a noite, a cada pancada de vento, era como se um guindaste estivesse abalroando a nossa casa. Me lembrei do furacão Georges em 1998 quando eu estava em Miami. Nós pegamos ventos bem violentos sim e de tão amendrontados, dormimos no closet. Mas no dia seguinte, descobrimos que o furacão tinha saído da rota prevista e só tinhamos pego as laterais…

Então quinta de noite essa tempestade chega. Não me abalei muito mas fiz questão de estar minimamente preparada. Os carros com o tanque cheio. A casa toda arrumada, roupa lavada e louça limpa e guardada. Velas em posições estratégicas, pilhas de todos os tamanhos e comida que não precisasse de refigeração. Pedi, implorei pro Robert voltar pra casa pelas rodovias de alta velocidade e não pelas ruelas cheias de árvores. Eu deveria ter ído um passo além e comprado um gerador. TODO ano a gente reclama “deviamos ter comprado um gerador” . E todo ano a gente fica pelo menos um dia sem luz. Como eu moro num vale ao pé das montanhas, qualquer vento faz uma destruição danada. Meus vizinhos foram mais espertos e muitos deles tinham gerador ligado.

O problema é que muita gente ficou sem luz horas antes da gente, ou foram mais espertos que a gente – period – e na sexta-feira era impossível achar gerador pra comprar em qualquer lugar que seja. Eu não estava chateada por causa do frio, até porque minha casa estava marcando constantes 66F (segundo o Rob, 6 graus a mais do que o pai dele costumava manter a casa pra poupar eletricidade hahaha) e a lareira estava ligada o tempo todo; mas eu estava chateada por causa da comida de dois freezers e uma geladeira que teve que ir pro lixo. E eles estavam cheios. Deu pra salvar meia dúzia de coisas que estavam na parte mais baixa de um dos freezers, mas o resto foi tudo jogado fora: minha geladeira agora só tem água, coca-cola e cebola. Os locutores da rádio AM que estavamos ouvindo, avisavam pra acorrentarem bem os geradores porque já tinham tido casos de roubo! Roubo de gerador e de gasolina! Gasolina era outro bem valioso.

Uma pessoa de 26 anos morreu por ligar o gerador dentro de casa. Vinte cinco outras pessoas tiveram que ser levadas para câmaras hiperbáricas após terem trazido a churrasqueira de carvão também pra dentro de casa. Algumas pessoas morreram quando árvores caíram em cima do carro delas. Outro, muito esperto, colocou GASOLINA na madeira pra acender a lareira – pegou fogo na casa inteira.

Mas é numa situação dessas que a gente percebe que não importa o quão não preparado você está, que o ser humano sempre vai abrir as portas pra ajudar a quem quer que seja. Foram quase dois dias pra gente sem luz, mas ainda tem muito mais gente sem luz. Mais de 1 milhão de casas sem luz desde quinta de noite. Mas de 80% do sistema de alta tensão da região foi danificado. A previsão pra muita gente pra voltar ao normal é de 1 semana, 10 dias.. e o Natal aí do lado. As coisas com certeza não estão normais ainda, mas aos poucos vão melhorando. Fico morrendo de pena de gente que mora em áreas que foram realmente destruídas, com cabos de alta tensão pra todos os lados nas ruas. Algumas pessoas não puderam sair das suas ruas com medo de ser eletrocutadas. Vi uma entrevista de um rapaz cego que teve que pedir ajuda com medo de andar nas ruas sem saber onde o perigo estava.

Por causa disso tudo, profissionais da área de eletricidade vieram de outros estados (tão longe quanto Dakota do Sul!) pra ajudar de graça a restaurar a luz da região. Os eletricistas (não sei se esse é o nome correto) trabalham dia e noite, sem parar, num frio abaixo de zero (felizmente não tem chuva) pra que tudo volte ao normal o mais rápido possível. Várias pessoas sairam da sua rotina pra levar comida e bebida para esses trabalhadores incansáveis. Muitas outras procuraram ajudar a quem precisasse de ajuda. Outras abriram suas casas pra arrebanhar o maior número possível de vizinhos.

Sem eletrônicos e distrações do mundo moderno, as pessoas conversavam nas ruas, redescobriram o verdadeiro sentimento de comunidade, observaram as estrelas numa noite que não tínhamos as luzes da cidade pra atrapalhar, dividiram comida com estranhos, fizeram amizades com pessoas que viam diariamente há mais de 10 anos mas nunca se conheceram, ouviram rádio AM… e nós, acampamos em frente da lareira, enroscadinhos debaixo de um edredon de pluma de ganso, sentindo o cheirinho do cangote do Thomas, com os bichos enrolados nos nossos pés. E pode dizer o que quiser, mas sair da rotina é muito bom!