Pessoas

Eu estava para escrever isto há muito tempo. Desde a época que eu trabalhava naquela clínica veterinária. Esta clínica que
eu trabalhava era a mais cara da região. Os clientes pagavam uma fortuna para terem um tratamento vip. Eram jogadores de
baseball profissional, apresentadores de televisão, cantores..

Um belo dia, uma menina gordinha de seus 17 anos, trouxe um Bernese, se eu não me engano o nome dele era Mike e eu
conversei bastante com ela porque eu também tenho uma Bernese (Gwen). Os pais dela criam cavalos Appaloosa e cães Bernese
como lazer, apesar de apresentarem os animais em shows. Eles tem muito muito muito dinheiro.

O pai, se eu não me engano é engenheiro e viaja sempre para a Índia, e numa dessas viagens a menina, acho que o nome dela
era Sarah, foi com ele e se apaixonou pelo país. O sonho dela, ela nos contou, era ser veterinária de cavalos.

No alto da riqueza toda dela e dos seus 17 anos, a menina trabalhava como ajudante num escritório de fotografia após as
aulas para poder juntar dinheiro e voltar à Índia sem o dinheiro do pai. Ela disse que quer ajudar os cavalos dos colhedores
de arroz da Índia que muitas vezes só têm 3 patas ou estão em péssimas condições físicas, para que assim, indiretamente, ela
ajude aquela população que necessita tanto.

Num primeiro momento me senti muito triste, porque era assim que eu me sentia quando eu fazia veterinária no Brasil. A
vontade de ajudar aos que necessitam era a minha prioridade. Me vi naquela menina, que vai fazer o que eu nao consegui
terminar. Mas fiquei extremamente feliz por saber que este mundo não estará completamente perdido enquanto houverem pessoas
como ela.

Ela nos mostrou as fotos profissionais dos cavalos dela, as revistas com seus garanhões, contou estórias da Índia e depois
foi embora. Fiquei com cara de apaixonada pelo resto da semana. Eu ainda lembro dela até hoje e agora deu vontade de
escrever.

Depois que a Sarah saiu da clínica, a colega que eu jamais gostei, vomitou um poço de insensibilidade e ignorância
dizendo: “Eu não sei que tipo de vida ela vai ter lá na Índia, mas já que ela quer ir, né…” Eu olhei pra ela com cara de cú
e pensei que enquanto uns tem tanto, existe uma mulherzinha como ela que tem tão pouco.