Há 11 anos atrás eu fui pintada com tinta guache dos pés à cabeça, pedi dinheiro no sinal nas ruas da Gávea e comi Mr. Pizza pingando gordura. Também tracei diversas cervejas Bohêmias, dei uma baforada num charuto fedorento (pra nunca mais) e conheci a internet pela primeira vez. Não tinha nem 18 anos de idade, era a mais nova da turma, e estava entrando pela primeira vez numa universidade. A PUC, imponente, com seu Pilotis cheio de histórias, histórias de revoluções que ouvi da boca dos que estudaram na PUC em 1968. Quanta emoção fazer parte daquela história! Os professores nos instigavam dizendo que seríamos a elite de um país, formadores de opinião. Eu acreditei.

Publicidade não era pra mim. Não bastava escrever bonito e entender tudo de composição, design e tipografia. A criatividade, pelo menos naquela época, não tinha ainda visitado a minha linda cabecinha. Vi muitos de meus amigos mudando de curso, indo pra psicologia, engenharia até. Eu não: eu amava publicidade, mas a publicidade nunca me amou.

O tempo passou e fui fazer o que eu realmente eu tinha talento. Afinal, pra quem cresceu ouvindo falar de remédios e doenças e ainda vendo os vizinhos se enfileirando na porta da minha casa pra receber uma injeção (ou tirar pontos), isso sempre me pareceu a idéia mais lógica. E eu ainda gostava de animais. Fui então fazer medicina veterinária.

Essa universidade não tinha prédios imponentes nem muito menos história. Mas me conquistou na sua honestidade. Os livros eram sim muito caros, mas os professores eram competentes e eu entrava em êxtase a cada aula no laboratório anatômico ou histológico. E ainda saía das minhas aulas sentindo o aroma maravilhoso do cocô de cavalo e de mato molhado. Isso sim que era vida! Na minha memória ficarão para sempre as lições aprendidas das aulas de dissecação, mas mais entranhada fica a capacidade de adaptação e improvisação que eu aprendi. Certa vez, quando faltou uma tala para o cavalo que quebrou a pata, usamos um cano PVC gentilmente cedido por encanadores. Era isso que me encantava. Praticar medicina quando se tem tudo disponível de repente ficou muito fácil.

Aí, a Luciana se encantou por um certo par de olhos verdes e o resto é história. Foram quase 5 anos de espera, depressão e mudanças. Quase 5 anos esperando por esse exato momento, em que eu pisasse numa faculdade novamente e retomasse de onde eu tinha parado.

Ontem foi meu primeiro dia de aula numa faculdade local. Minha primeira experiência educacional nos Estados Unidos. Posso dizer que é tudo muito igual ao Brasil, sem tirar nem por. A única diferença é que hoje tudo é feito pela internet: a matrícula, as anotações da aula e até a interação com o professor.

Sem contar que diversas matérias podem ser feitas inteiramente pela internet sem necessidade de aula no campus. Eu peguei English 101 online e já de cara achei um barato. Se trata de um fórum ou bulletin board privado onde você posta sua composição e é criticado pelos seus colegas. Você tem a obrigação de se conectar todos os dias e deixar críticas construtivas para pelo menos dois colegas. Durante o período (10 semanas), você terá que compor 5 redações de mil linhas.

Nossa, como esperei por esse momento de voltar a estudar. Esperei tanto que me destaquei da realidade – sabe quando você pede tanto por algo mas tem um momento que você não sabe nem mais o que está pedindo, só sabe que tem que continuar? Voltar pra faculdade não foi nada fácil, eu estava tão nervosa que passei mal dentro do carro. Quando cheguei lá me senti uma vovó no meio do pessoal que tem 10 anos a menos do que eu. Às vezes eu me sinto como se estivesse num universo paralelo, ou uma espécie de vórtex que me suga pra uma outra dimensão. Quando a aula acaba, eu pego o carro e respiro aliviada. Ao passar pelos portões de saída do campus, eu penso que finalmente voltei pro meu mundo. O mundo da realidade.

 

9 Responses to O primeiro dia do resto da minha vida

  1. Lu, parabens! 🙂 Nao e mesmo nada facil recomecar, mas voce ja deixou um monte de coisas para tras quando deu esse primeiro passo de voltar as aulas 🙂 Boa sorte e quero ouvir todas as historias quando a gente voltar pra casa!

  2. Flea says:

    Para bems, Lu!

    I was in school for so long (1969-2000), I cannot contemplate going back! My days as a “degree collector” are over.

    Good for you!

    May your horizons continue to expand.

    best,

    Flea

  3. Heloisa says:

    Que bom ver voce feliz e realizando um sonho! Um grande abraço.

  4. rosilande says:

    Luciana, parabéns pelo retorno as aulas e ao caminho de mais um sonho. Felicidades.

  5. Naluh says:

    Parabens, Lu!!! Faz um bem danado!! Tao bem que vou voltar a estudar dentro de um tempinho tambem – minha 3 carreira!
    E da PUC… saudades mil! Fui aluna da PUC, no curso de Sociologia e Ciencias Politicas justo na epoca das Diretas Ja e do primeiro ano do governo civil em 85!! Nao peguei 68, mas fiz parte do fim da ditadura!
    Fico feliz em saber que vc estah bem, feliz e construtiva!
    Beijo e queijo aos milhoes!!!

  6. Melissa says:

    Parabens Calinca!!!
    Yupiiii!!!!
    Voce eh nota dez mulher, vai abalar geral!!!! To te falando, voce vai ser a melhor aluna das suas turmas. Estes alunos daqui sao tao marromeno….

    Beijao e parabens!!!!
    UTERERE! UTERERE!!!!

  7. Tia Marina says:

    Nem acredito,
    A menina volta-se para os estudos!!! Volta porque quer, volta para se completar e , num futuro próximo, colaborar com a sociedade numa outra dimensão – a da competência profissional. É isso aí! Quando faz sentido, estuda-se com prazer, com felicidade, vorazmente.
    Feliz retorno. Mas nunca despreze o ter dado uma volta por um outro atalho. Vc nada mais estava fazendo que descobrir e se descobrir.
    PARABÉNS!
    Tia Marina

  8. Silvana says:

    Lu,
    Não tem nada a ver, mas eu morro de curiosidade de como vc se “encantou por esse par de olhos verdes?” um dia conta pra gente.
    Silvana

  9. Monica says:

    Luciana, eu sempre quis fazer veterinária, mas sempre achei que nas aulas de anatomia eu morreria do coração. Nao sei se vc se acostuma depois, mas eu nao sei se conseguiria mexer num cachorro morto.

    Outra coisa é quando eu vejo um bichinho sofrendo, eu SOFROOOO choro, fico agoniada, isso será que vc acaba se acostumando tb?

    Beijocasss

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