O Casamento

Era uma segunda-feira, 22 de outubro de 2001. Dia fácil para se organizar um casamento pela falta de competição, mas não tão fácil pra noiva chegar na hora certa. Ela passou o dia em casa, sob os paparicos do cabeleireiro espalhafatoso e cercada pelas madrinhas. O almoço não foi mais do que um pedaço de pão com requeijão e guaraná. Mas nada descia, tamanha era a ansiedade. E ela nem gostava de guaraná.

Tinha prometido a si mesmo que não chegaria atrasada no próprio casamento, mesmo sabendo que dependeria de várias pessoas que iriam para o local da cerimônia no mesmo carro. Não esperava, porém, que duas das madrinhas pedissem para refazer o cabelo mais de duas vezes cada. Enquanto elas esperneavam pelo look perfeito, afinal essa festa era mais do que esperada, a noiva sentava em um banquinho sem encosto, tentando manter o vestido o mais esticado possível e as meias finas sem correr o fio. Pa-ci-en-te-men-te.

Também não esperava receber um bolo – bolo como em “não aparecer” – da compania de carros alugados que a levaria da Barra da Tijuca até Copacabana. Infelizmente, bolos não dão aviso prévio e por pouco ela não foi de taxi. Já estava tão enlouquecida, tentando parecer calma e paciente diante do caos, que até lhe passou pela cabeça pegar uma carona até a Avenida das Américas com algum vizinho e alí pegar algum frescão, mesmo com toda a vestimenta. Felizmente, o carro do padrasto era bem novo e bonito e serviu muito bem como carro de noiva por uma noite.

O horário de sair chegou e passou e, alguns minutos antes da hora marcada para a cerimônia, despacharam o noivo (que estava no apartamento ao lado) junto com metade da trupe pra tentar pelo menos certificar os convidados de que a noiva iria comparecer. Pior foi que, quando finalmente conseguiram tirar todo mundo de casa, ainda enfrentaram um engarrafamento fora de hora que comecou em São Conrado. Depois de muito mentalizarem a cor azul, padrasto e noiva finalmente conseguem avistar a primeira guarita. O soldado vem ver as referências e os deixa passar após a palavra mágica “Coronel”, que vem antes do nome do padrasto-motorista.

Ao receber o ok da cerimonialista, a noiva saiu do carro no meio do estacionamento e pausou pra fazer sentido de tudo o que estava se passando. Trezentas pessoas, provavelmente famintas e cansadas após uma segunda-feira normal, a esperavam no Salão Nobre do Forte de Copacabana. Só conseguia pensar nos convidados e no coitado do padre que andava de cadeira-de-rodas e que já devia estar tendo um gato pela orelha após esperar por mais de uma hora no altar improvisado.

A noiva pausou e ouviu o mar. Nada mais importou depois de ouvir as ondas batendo na encosta do Forte. O céu estava tão preto e tão grande, que a fez sentir como se estivesse dentro do Planetário da Gávea. Pensou por alguns momentos em como tinha sorte de poder se casar naquela península cercada de mar e de céu, e foi.

A porta dupla se abriu e a claridade era até um pouco demais pra quem tinha vindo da escuridão. Enamorou por uns instantes as delícias das mesas de café e chocolates e desceu as escadas como quem estava indo para um matadouro. Se ela achava que estava nervosa antes, era porque tentava distrair suas próprias preocupações ficando irritada com os outros. Agora não tinha mais ninguém pra levar a culpa. Era ela contra 300.

Ela, que nunca gostou de ser o centro de atenções, tinha que enfrentar um tapete vermelho que naquela noite parecia que tinha multiplicado de tamanho. Se arrependeu amargamente de não ter escolhido uma igrejinha minúscula onde só precisasse dar dois passos que já estaria no altar. Parou no final do tapete sob o comando da infeliz da cerimonialista (afinal, foi ela quem a colocou nessa enrascada) e esperou pela música, Canon in D de Pachelbel, que tinha escolhido para entrar.

Antes da música começar a tocar, o panaca do DJ resolveu adicionar uns sinos gravados horrorosos, como se aquilo fosse enganar alguém. O primeiros passos dela foram de raiva, quase que marchando. Teria partido pra cima do DJ se não tivesse sido lembrada, pelo flash do paspalho do fotógrafo, que tinha que parecer linda e contente. O caminho até o altar era tão longo, mas tão longo, que deu pra esquecer a raiva. Olhou pros amigos, pra avó velhinha, pro resto da família e pras madrinhas e viu que todos estava sorrindo, menos ela. Cada passo ali era calculado pelo medo de cair, pelo medo da multidão, pelo nervosismo da ocasião. Até que se pôs a chorar. Se já não bastassem 300 pessoas destrinchando cada minuncia do seu corpo, agora eles também teriam a memória gravada pra sempre de um rosto completamente desfigurado pelo chôro descontrolado.

Algumas décadas depois, chegou ao altar. A cerimônia correu sem maiores problemas e foi muito bonita e até engraçada quando o noivo esqueceu os votos e começou a inventar um monte de coisas sem sentido. Infelizmente, ela só achou isso engraçado dois anos após o acontecido. O imbecil do DJ aprontou de novo no final e isso ela nunca perdou, até hoje: colocou a música do comercial do Vinólia dos anos 80 pra saída dela. Sensível diferença para mulheres especiais.

Como a festa era no mesmo lugar da cerimônia, a noiva não foi muito longe. Tirou umas fotos no exterior do salão e voltou pra aproveitar a festa. Algumas horas depois, as madrinhas já estavam todas descabeladas, suadas e bêbadas com o Whisky comprado pelos padrinhos no duty-free. A noiva, descalça, se acabava de dançar com o noivo enquanto um amigo de infância vomitava a dois metros deles. Um dos padrinhos até dançou uma coreografia de robô que só foi famosa mesmo nos Estados Unidos e vinte anos antes. Todos se divertiam como nunca.

Perto do fim da noite, ela seguiu para a varanda comprida e fina que percorria toda a extensão daquele prédio e dava para a praia de Copacabana. Estava vazia já que todos se divertiam no salão. Ela achou um desperdício, mas tentou respirar bem devagarinho aquele ar salgado pra nunca mais esquecer e voltou pra festa – agora que já tinha se despedido formalmente do mar, daquela noite e de tudo o que tinha vivido antes.

Happy iron anniversary, Rob!