Gravidezes

As minhas gravidezes não foram boas não e eu tive que ter muito bom humor pra aguentar. Foi muito difícil tentar abstrair tudo o que eu senti esperando pelo Thomas e pelo Lucas e focar somente no produto final. A minha sorte é que eu Robert foi nota mil, cozinhou todos os dias, fazia todo o trabalho doméstico (além da faxineira semana sim, semana não) e tomou a frente em tudo o que era possível, porque eu fiquei completamente inútil.

Com o Thomas a coisa foi mais típica. O primeiro trimestre com muitos enjôos (e vomitei bile todos os dias da gravidez até o dia dele nascer), o segundo foi ótimo e o último eu senti dores normais, azia, dificuldade pra dormir, etc. Mas eu lembro de ter andado de saltinho no shopping até bem pouco antes de entrar em trabalho de parto.

Já com o Lucas tudo foi igual ao Thomas multiplicado por 100. Não sei se foi por conta da cesárea anterior de emergência, já que meu médico disse que eu estava com muito tecido fibroso das cicatrizes. O meu primeiro trimestre emendou com o terceiro sem lembrar de me dar um descanso no segundo.

No primeiro trimestre eu estava tendo duas matérias de laboratório e tinha que ficar em pé muito tempo. Até aí tudo bem, e o fato de eu estar morrendo de enjôo (mesmo tomando zofran, um remédio para enjôos pra quem está fazendo quimioterapia) já era esperado e eu levei na esportiva. Mas o que me derrubou mesmo foi que meu estômago resolveu digerir os alimentos muito mal e porcamente. Então eu ía pra universidade e passava HORAS no banheiro vomitando o jantar da noite anterior. O pior dia de todos foi quando eu tinha uma prova às 7:30 da manhã e eu estava no chuveiro de  casa vomitando comida tailandesa (não aconselho) e sabia que ía chegar atrasada ou perder a prova. Fui pra prova com uma comida não identificada entalada na garganta.

Com quatro ou cinco meses eu já estava me arrastando pelos corredores da universidade. Pedia todos os dias pra parar em vagas de deficiente (ainda bem que eles deixavam) porque minha barriga já estava enorme, minhas pernas e quadril doíam MUITO. Com 20 semanas eu comecei a ter refluxo. Eu sentia o ácido na boca umas 3 vezes por MINUTO. Eu achei que tinha que aguentar isso sem remédio e uma eternidade se passou até que eu pudesse falar com a médica e ela me receitasse omeprazol – que eu tomei religiosamente até o final. Meu esôfago agradece.

Depois disso as coisas só foram de mal a pior. Passei a ficar em casa de pernas levantadas com aqueles pacotes de gelo azul em cima da “zona de lazer”. Sem o gelo nas partes pudendas, era como se meu corpo fosse se partir em dois (sorry for the mental picture). Eu andava muito devagar e entrar no meu carro, cujos assentos são altos, era muito difícil. Ficar sentada também era ruim, porque eu não conseguia me mexer e na hora de levantar eu parecia uma velhinha. Tive que parar de trabalhar no laboratório no início de junho, porque eu não conseguia ficar no microscópio por mais de alguns minutos.

Mas por que eu estou escrevendo isso tudo? Com certeza não é pra ninguém sentir pena de mim, até porque tem muita gente que sofre BEM mais do que isso, ou gente que daria qualquer coisa pra poder engravidar. Mas escrevo isso talvez como uma nota pra mim mesmo, para que eu possa vir aqui e saber exatamente o que me espera (ou não!) antes de embarcar nisso novamente. Existe uma certa pressão para que isso aconteça razoavelmente logo, por conta das idades minha e do Robert, mas no momento eu só quero aproveitar bastante pelo menos o primeiro ano do Lucas, antes de pensar nisso novamente. Só não poderia deixar muito tempo passar pra escrever, antes de cair no esquecimento, o quão difícil foi pra mim essa gravidez. A natureza é muito esperta, né? A gente esquece bem rápido todas as agruras..

No momento que eu ouvi o primeiro chorinho, já tinha esquecido dos detalhes de tudo isso e de lá pra cá foi só felicidade. Lucas saiu da minha barriga chorando forte e alto. Eu tive que consolar o Robert (haha!), que começou a chorar também, enquanto ouvia do médico enquanto me costurava: “o seu útero está muito jovem e saudável, ainda dá pra sair umas duas ou três crianças daqui”. Eu ri e respondï “não, obrigada!”. Mas naquele momento eu soube que aquela não podia ser a minha última vez tendo aquela alegria. Não existe nada na minha vida que me deixe mais feliz que meus filhos e faço qualquer coisa por eles e pelo que ainda nem sabe que vai nascer. Inclusive dormir com gelinho entre as pernas. 😉