Desespero

Eu demorei pra falar isso aqui no blog porque eu tinha esperanças que as coisas fossem mudar até ontem.

Tenho péssimas notícias pra contar:  Max e  Mia estão desaparecidos.

Os dois sempre foram meio moleques de eu ter que me certificar que ninguém está perto da porta antes de abrir, mas errei algumas vezes com meus filhotes. O Max sumiu durante a festinha do Thomas, dia 2 de novembro, um domingo. Eu fiz pizza na hora para os convidados, então fiquei na cozinha a maior parte do tempo enquanto o Thomas abria a porta pra quem chegava. O Max deve ter saído nessa hora.

Todos eles já fizeram isso em algum ponto mas o máximo que eles fazem é rolar na grama e voltar algumas horas depois. A Chloe é fácil de ir atrás e pegar imediatamente. O Max eu não posso ir atrás, eu tenho que abaixar e chamar ele com um chamado especial, e a Mia, esqueçe, tenho que esperar ela aparecer na porta de vidro quando der na telha pra ela poder entrar.

Quando o Max saiu, eu não chamei ele de volta porque eu não vi que ele tinha desaparecido até o dia seguinte. Ele se esconde normalmente debaixo da cama de visitas quando temos gente estranha na casa, e a casa estava cheia de crianças e adultos. Quando acordei notei que ele não estava lá pra me dar bom dia como ele fazia todas as manhãs e comecei a ficar preocupada.

O Robert disse que quando eu estava no Brasil em 2005 ele saiu e só voltou 3 dias depois, obviamente ele só foi me contar isso agora, 3 anos depois. Mas isso prejudicou de certa forma, porque eu não fui procurar por ele imediatamente, fiquei esperando ele voltar. Se você perder um bichinho, NUNCA ESPERE. E se morar nos EUA, arrume alguma outra alternativa pra sair de casa ou abrir a porta, se seus gatos gostam de escapolir de vez em quando. Os meus faziam isso raramente, mas quando eu menos esperava, lá estavam eles escapolindo por debaixo das minhas pernas.

Depois daqueles 3 dias iniciais, eu comecei a tomar providências. Liguei pros veterinários locais e abrigos e deixei um flyer que eu fiz com a foto e descrição dele. Deixei mensagem em classificados, e fiz várias cópias desse mesmo flyer e pedi pro Robert deixar em cada porta de todas as ruas que ele poderia ter tido acesso. Ele tem microchip, então ficamos esperando por alguma ligação se alguem o achasse.

Quase um mês passou e eu já tinha perdido as esperanças. O Max é MUITO mansinho e não sería muito difícil alguém atraí-lo com comida. Além do que ele é um gato muito bonito, parecido com uma raça chamada Maine Coon (inclusive ele me foi adotado como se fosse Maine Coon mix, eu acho que é pra adotar mais rápido). Ele é peludo e gostosinho. Não tem quem não goste de Max, e foi meu primeiro filhote: o adotei há 7 anos atrás quando ele tinha 6 meses de idade. Apesar de muito chateada, eu estava convencida que ele estava bem em alguma casa.

Mas isso mudou ontem.

Antes de ontem à noite (terça-feira) eu fui para o laboratório e depois disso fui pra Bellevue pedir uma carta de referência e acabei ficando lá um tempão. Só cheguei em casa bem depois do Robert, lá pras 7h da noite.

Jantamos, e o Thomas pediu pra ver o músical Cats (ironicamente) que eu tinha acabado de comprar. Como já estava tarde, o Thomas dormiu no meio do programa, e nós dois já estavamos quase dormindo também. Fui abrir a porta pra Gwen fazer xixi antes de irmos dormir e a Mia escapoliu. Fiquei fula da vida porque já estava tarde e agora ía ter que esperar ela voltar. Eu fui dormir às 3h horas da manhã – não aguentava mais, e ela nada. O Robert estava no bagaço no dia seguinte, tendo que acordar às 6:30 pra ir pro trabalho. Eu acordei às 8:30, peguei a Gwen pela guia (talvez ela escutasse ou sentisse o cheiro da Mia ou do Max) e fui andar por todas as ruas tentando achá-la.

Voltei pra casa com as mãos vazias. E comecei a conversar com o Robert no MSN. Eu perguntei a ele o que mais eu poderia fazer, fizemos a mesma coisa que fizemos com o Max (e ela também tem microchip), e nessa hora eu estava em descrédito. COMO eu ía perder DOIS gatos em menos de um mês? Não é POSSÏVEL que gente que tem gato que passa a maior parte do tempo FORA de casa, por ANOS, e os meus saem em uma noite e SOMEM.

Tem algo errado nessa estória.

Ligamos pra presidente da comunidade e pedimos pra ver o que mais poderíamos fazer e se poderíamos entrar no grupo de e-mail que é distribuído pra todas as casas, assim poderíamos mandar emails além dois flyers.

Meu coração caiu: A presidente disse que tinha recebido um email do dia 25 de outubro sobre um coiote magro que foi visto DURANTE O DIA dentro de um jardim com cerca alta, bem perto da minha casa. Ela nos mandou a cópia do email.

Nunca me passou pela cabeça que a gente ía ter coiote aqui perto (em Maple Valley, sim, porque tinha floresta atrás da minha casa e porque por várias vezes a gente escutou eles gritando de noite), porque temos muitas ruas bem movimentadas por todos os lados, mas como eu estava errada. Descobri recentemente que eles podem aparecer até em cidades grandes e atacar humanos porque se adaptam facilmente ao progresso da região e não fogem pra outra áreas. E a presa mais fácil deles é o que? Gatos, cachorros pequenos, coelhos de estimação e os óbvios animais de fazenda, tipo galinhas e até carneiros.

Fiquei boba de ver que eles são corajosos o suficiente pra atacar cachorrinhos pequenos até dentro do jardim com cerca. Eles pulam cercas de 8 pés facilmente e são persistentes e pacientes quando estão caçando.

Achei que isso poderia ser uma possibilidade, porém remota.

O Robert voltou pra casa logo depois do almoço pra me ajudar a procurar. Fizemos o mesmo caminho que eu tinha feito pela manhã, e das duas vezes eu (e depois ele também) ficamos chamando o nome dela o tempo todo. Eu sabia que ela não ía vir, mas eu esperava que ela fosse miar de volta como sempre fazia quando eu a chamava aqui em casa.

Passamos na frente de uma casa cujo dono estava pregando as luzes de natal no telhado e dissemos que estávamos procurando por nossos gatos. Ele disse que tinha visto um coiote passar alí na frente da casa dele (provavelmente o mesmo coiote do email, mas semanas mais tarde) na rua onde a gente estava parado às 3 horas da tarde da semana anterior. Os coiotes caçam durante à noite normalmente e o perigo é que esse coiote já esteja acostumado o suficiente com áreas urbanas e faminto o suficiente pra ser tão atrevido assim.

Ficamos olhando pra todas as árvores durante a caminhada, pra ver se ela não tinha subido em uma delas. Nada.

Olhamos em todos os canos, dentro dos arbustos, debaixo de carros.

Voltamos pra casa e tentamos racionalizar. O Max iría pra uma casa se convencido, mas a Mia jamais estaria numa casa estranha, ela simplesmente é muito arisca (ela mal deixa a gente por a mão nela) então só me resta acreditar que ela estaria na rua em algum lugar. E porque ela não está voltando pra casa? Porque  está presa em algum lugar ou está morta.

O meu descrédito foi dando lugar ao desespero ao longo do dia  ontem, porque quanto mais a gente pensava na situação, menos a gente acreditava que eles estavam na casa de alguém e menos a gente acreditava que eles simplesmente estavam perambulando pela rua.

E ontem foi o dia que eu desabei. Nem fui pra faculdade porque eu estava sem condições. Eu estou tentando seguir com a tradição do dia de Ação de Graças, que é hoje. Imaginar meus filhotes perdidos já é de cortar o coração, mas imaginar os dois presas de um animal selvagem simplesmente é terrível demais, parece que um parente meu morreu.

O Max era o carinhoso da família, vinha ronronando todas as manhãs se enroscar entre o meu corpo e o do Robert. Lambia a ponta do meu nariz e confiava na gente totalmente (Me desculpa, meu gatinho, por eu ter deixado você na mão!). A Mia era a alegria da casa. Vivia galopando pra lá e pra cá, fazendo um barulhão, e brincava de atacar o nosso pé debaixo das cobertas. Só deixava a gente fazer carinho se ela viesse deitar no nosso colo ou se ela estivesse dormindo no sofá. No dia que ela sumiu, eu tinha me despedido dela pela manhã dentro do meu armário – ela estava dormindo em cima da minha roupa suja. Fiz um carinho gostoso, segurei ela no meu colo e dei beijinhos. Ela ficou tensa como sempre, com as unhas pra fora, mas eu queria acostumá-la com o carinho humano. Olhei pra minha calça de ginástica preta cheeeeia de pêlos brancos da barriga dela e achei graça.

Eu não consigo parar de chorar, agora que eu estou quase convencida que os dois estão mortos. Mas eu ainda fico olhando pela janela o tempo todo e esperando um milagre. Eu não aguento isso. Eu simplesmente não aguento. Eu me sinto completamente responsável pelo o que aconteceu com eles e a culpa de ter machucado meus bebês é simplesmente demais pra aguentar.