A Ásia é aqui

Coréia, China, Birmânia, Japão e Tailândia são os países das minhas amigas de faculdade mais próximas. Também tenho 3 míseras amigas americanas (mesmo porque na minha turma de química temos mais estrangeiros do que americanos) e algumas africanas (Eritréia, tem noção?). Uma delas eu ainda não perguntei de onde veio porque eu ainda me sinto intimidada pela burka, apesar de parecer que eu sou a única. Ela sempre me oferece o que quer que seja que está comendo e faz muita palhaçada com a gente no laboratório de química.

Aliás, o laboratório de química orgânica é uma piada. Como os experimentos são muito demorados – a maior parte a gente coloca as paradinhas pra “cozinhar” por 1 hora – a gente fica batendo papo sobre as mais variadas coisas. Minha amiga da Birmânia sempre tira uma banana gigante da bolsa pra comer e eu acho aquilo muito engraçado e tiro um sarro com ela. Minha amiga da Coréia é mais quietinha, mas está sempre com um olho arregaladão perguntando “temos mesmo que memorizar isso tudo?” . Minha amiga da China sempre ri muito alto quando minha professora do Irã fala NMR (nuclear magnetic resonance) – e olha que ela fala isso um milhão de vezes por minuto – porque soa como enema. Um professor antigo (americano) sempre surge do nada e faz palhaçadas como se auto-intitular galã e sexy. Mas também diz que a vida dele está sendo contada em “My name is Earl”.

Eu tiro muita vantagem que minhas amigas asiáticas são ótimas em química, e elas tiram vantagem que eu sou ótima em biologia. Falar português definitivamente me ajuda nessa hora e ter que aprender mil palavras de origem latinas. Elas já não tem essa sorte. Mas a palavra nem precisa ter origem latina pra cofundir, porque pra elas biologia nada mais é do memorização, enquanto que pra mim tudo faz sentido. Uma vez um amigo nosso, chinezinho, teve a maior dificuldade em memorizar o que eram “claspers” num tubarão (na aula de anatomia) e eu falei pra ele “É o pênis do tubarão. Olha só como ele é melhor do que você, ele tem dois e você só tem um”. Ele nunca mais esqueceu.

Eu também acho engraçado avaliar a nacionalidade e a cultura do toque. Minha amiga da Birmânia chegou ao ponto de puxar minha calça pra cima quando minha roupa de baixo estava aparecendo (eu estava debruçada sobre o balcão tentando alcançar o equipamento) e eu achei aquilo muito estranho porque eu acho que não estou mais acostumada com isso. Ela também deita no meu ombro quando esta lamentando sobre os estudos (a menina é um crânio, diga-se de passagem) e me dá uns tapinhas quando eu falo algo engraçado.

Estamos todas muito unidas e até planejando um churrasco de despedida agora no meio do ano, quando finalmente cada uma vai pra um canto. Algumas delas vão pra Universidade de Washington junto comigo, mas não sei se vai ser possível encontrá-las, a não ser a menina da Birmânia que vai estar fazendo as matérias no mesmo prédio que eu. Mas esse ano de estudo com elas já valeu muito, vou sempre lembrar delas e espero manter contato. Eu acho ótimo a salada que é este lugar: a proximidade da Ásia, a Microsoft e a Boeing, são os maiores colaboradores para que essa região seja assim. Nunca paro de pensar em como as culturas se mantém intactas mas também existe uma integração enorme entre elas. E todas nós ganhamos com isso.