A primeira coisa que fizemos quando surgiu a oportunidade de alugar o Motorhome pela metade do preço do que alugam por aí, foi exclamar: “a viagem da costa da California!!”, que era uma coisa que já queríamos fazer há muito tempo. Depois explico porque essa decisão não foi a mais acertada. Por agora digo que passamos semanas, acho que desde fevereiro, sofrendo em decidir se íamos fazer isso ou não.

Os números não batiam. Mesmo pagando a metade do preço, sairia mais caro, e bem mais caro, ir de motorhome do que de carro ou de avião. Quando falo motorhome, estou falando daqueles que são de um tamanho de um ônibus, depois explico as diferenças. Mesmo colocando hotel e voo, o preco da gasolina (no nosso caso é Diesel que é mais carinho), o aluguel do motorhome e as diárias dos RV parks (espécie de hotel para motorhomes e trailers; RV é recreational vehicle, um termo geral pra motorhomes e trailers), ficaram bem acima. Ir de carro, claro, sairia bem mais barato do que voar e nao precisariamos alugar um carro, mas sempre tivemos vontade de viajar de motorhome e a oportunidade simplesmente caiu no nosso colo. Como recusar? Algumas semanas nós resolvemos que não valia a pena, só pra logo em seguida ficar morrendo de pena. Então resolvemos ter uma conversa séria e bater o martelo que sim, ía sair mais caro mesmo, mas dane-se. E viramos a página.

O Itinerário:

A decisão de fazer a viagem não quer dizer que a idéia de todo é razoável. A viagem que eu montei com certeza vai ser ótima, mas acabou que não vai ser totalmente pela costa como queríamos. O meu primeiro itinerário, aquele dos sonhos, era completamente impossível fazer com um ônibus, logo vi que precisava cortar muitas cidades (eu queria ir pela costa do Oregon também, por exemplo) e adicionar mais dias. E mudar rotas. Pelas minhas leituras e participações de foruns online especializados, a idéia de levar um motorhome de 39 pés (quase 12 metros) pela maior parte da costa seria possível, mas fortemente não aconselhável pela quantidade de curvas e rodovias estreitas. A resposta foi unânime: muito tenso e não aconselhável pra um motorista experiente, incrivelmente mais tenso pra um motorista não experiente. Não faça.

Com a decisão de cortar as cidades de Oregon e deixar só a California mesmo, ficou mais fácil focar a viagem num período de tempo adequado: 2 semanas. Isso seria o mínimo, mas acho que uns dias a mais ficaria ainda melhor. Percebi que quase todos os donos de motorhome, ou aqueles que viajam neles em tempo integral, usavam Microsoft Street & Trips pra planejar porque funciona com GPS, tem todas as paradas necessárias dentro dele, você pode calcular/planejar gasolina, paradas, tempo e também se tem algum viaduto que é mais baixo do que o tamanho do seu motorhome. Claro que dá pra fazer tudo isso sem esse programa, mas como eu posso pegar ele de graça, foi isso que fiz e não me arrependi. Também baixei, só pra garantir que o Streets não era vacilão, uma lista de Low Clearance (passagens com o teto mais baixo do que o padrão, que é 14 pés de altura) da Califórnia pra saber se tinha algum lugar que teríamos que evitar, já que o motorhome tem 13 pés de altura.

Pesquisei o que o pessoal considera aceitável dirigir por um dia. A primeira coisa que surgiu na minha cabeça foi que devia ser diferente a sensação: será que cansa mais? Menos? E o óbvio é que em algumas situações você vai estar dirigindo mais devagar que um carro, mas felizmente dá pra acomapnhar bem o fluxo na maior parte dos lugares. O consenso é que 4 a 6 horas por dia é provavelmente adequado – muito mais do que isso começa a ficar perigoso porque realmente o motorhome sente qualquer buraquinho na estrada, então a atenção é redobrada como quem viaja numa moto, por exemplo.

O dono do motorhome nos deu dicas ótimas de postos de gasolina, RV parks que ele gostou e disse: “Essa é a primeira vez que vou deixar alguém usar meu motorhome e é só porque é pra vocês, mas vocês precisam ir numa viagem menor antes dessa grande pra ver onde vocês estão se metendo. E vou dar aula de direção e mecânica pra vocês.” Feito. Conto pra vocês mais tarde sobre a viagem para Walla Walla, WA que acabamos de fazer.

Então com a ajuda do Street and Trips, eu fui marcando as cidades com as informações que eu já tinha. Fiquei algumas semanas olhando pro trajeto e pesquisando o que queríamos fazer, e não mudei quase nada desde a primeira vez que eu usei o programa. Exceto adicionar alguns dias em alguns lugares e mudar um específico RV park que tinha que fazer muita manobra pra estacionar, ficou tudo igual mesmo depois de me aprofundar mais no itinerário, o que foi bom.

O que quero dizer com me aprofundar no itinerário? Além do óbvio de ver onde queríamos ir, tínhamos que prestar a atenção em alguns detalhes. Uma prioridade pra mim é que o local do RV park fosse de fácil acesso. Por incrível que pareça (e agradeço aos foruns especializados e ao Google Maps) alguns tem umas entradas bem complicadinhas pra um RV desse tamanho, tipo, uma pista só, super estreita e com uma inclinação que me deixa desconfortável.  Outros são em localização não desejáveis, ou muito barulhentos, ou sem muita segurança. Felizmente, existem muitos sites de reviews de RV park na internet e dá pra saber com certeza quais são os bons e quais são ruins. Existem RV parks que não tem nada e outros que são super luxuosos.

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Onde ficar?

Você pode estacionar o seu RV em RV parks, que são propriedades privadas como um hotel. Muitas vezes o dono mora no próprio local e supervisiona tudo, e geralmente eles oferecem todos os hook-ups (conexões de eletricidade, água ou esgoto) e quando isso acontece eles tem full hook-ups. Às vezes alguns sites, ou vagas, tem todos os hook-ups e outros do mesmo park tem só alguns. Existem campgrounds, que são os famosos campings, que tem lugar pra barraca e trailers/motorhomes, que também pode variar bastante como os RV parks e também existem os parques nacionais que são disputadíssimos no verão mas muitas vezes não oferece eletricidade, agua ou esgoto, então você tem que resolver com o que o teu RV é capaz de fazer. Você também pode optar por fazer Boondocking, ou Dry Camping, que basicamente é ficar num lugar, geralmente público sem hook-up nenhum, como um estacionamento do Walmart (depois de pedir permissão!), ou rest area ou truck stop, ou onde a sua imaginação levar, mas certifique-se que pode antes de dormir num lugar desses. Normalmente quem só vai passar uma noite pra continuar viagem gosta dessa opção por economizar dinheiro e já que não vai precisar de nenhum hook-up mesmo.

Eletricidade: A maior parte dos RV parks oferece hook-ups de 30 ou 50 ampéres. Se você se lembra das suas aulas de física, amperagem é a contagem de força da corrente elétrica, então se você se conecta num lugar de 30 amp, você vai poder ligar menos aparelhos dentro do RV do que 50 amp. Como vamos viajar no final de agosto, temos que garantir vagas que oferecam 50 amp, porque já notamos pela viagem da semana passada que 30 amp só deu pra um ar condicionado (o motorhome tem dois) e não deu muita vazão com temperaturas acima de 90F e poucas árvores em volta. Lembre-se que a geladeira também suga eletricidade e fica ligada o tempo todo. Uma manhã, quando liguei a televisão, algumas luzes, o microondas e o fogão ao mesmo tempo, a geladeira começou a apitar avisando que ela tinha desarmado e estava usando as baterias e propano que existem no porão do motorhome e funcionam sempre que ele não está conectado.

O esgoto: Há! Essa é a parte mais divertida. Pode ser uma coisa muito nojenta, mas felizmente o dono do motorhome já foi dizendo que eles não fazem o número 2 no motorhome e que seria melhor se não fizéssemos também. Claro que se precisasse era diferente.  Ele era piloto militar e bem metódico nos costumes deles e obviamente o motorhome dele é muito limpo. Os motorhomes tem dois compartimentos de sujeiras: Black Water – água que vem das privadas, e Grey Water, que vem do chuveiro e das pias. No RV park que nós ficamos, o grey water fica conectado o tempo todo, e só quando você quer despejar a black water que você muda uma alavanca. As nossas intruções são para despejar sempre gray water depois da black e depois enxaguar a mangueira por dentro com água limpa pra manter tudo sempre limpo antes de guardar. Existem outros detalhes e aditivos que temos que adicionar, mas isso não interessa muito agora. O Robert fez tudo sozinho e rapidamente, não se sujou e foi tudo ótimo, mas eu sei que existem dois problemas pra futuros motoristas por aí: nem todo RV park vai ter o hook-up de esgoto no seu próprio site, alguns tem um só no park inteiro e outros não tem nenhum e você tem que procurar um posto de gasolina ou rest area que tenha (internet tem listas). Não necessariamente a mangueira do seu RV alugado vai estar limpa, eu espero que sim, mas verifique antes.  Tudo isso é fácilmente contornável, mas como existe de tudo nesse mundo, é bom saber pra evitar.

Como escolher um Site:

Dentro de um RV Park tem uma variedade de vagas, e dando uma olhada em sites de reviews e fotos do próprio park você pode ter uma idéia de onde você quer ficar. Sempre tem um mapa no website deles também. Existem tipos de vagas diferentes: Pull-thru é uma vaga que você pode estacionar de frente, Back-in é uma vaga que você tem que estacionar de costas. No nosso caso, optamos por sempre estacionar de frente. Estacionar de costas requer que eu saia do motorhome e dê indicações pro Robert, é muito complicadinho mesmo e o próprio dono do motorhome teve que fazer vários reparos de batidas que ele deu fazendo manobra. Algumas vagas são enormes a ponto de você pode estacionar qualquer carro que você esteja rebocando, e outras vagas são bem curtinhas. Na hora de fazer a reserva, é só você informar alguns detalhes no próprio site deles ou ligando pra fazer a reserva, como o tamanho do RV, se tem Slide-outs (expansões da carcaça do RV que deixa o espaço interno bem maior quando estacionado), se tem carro rebocando, etc.

Muitos RV parks funcionam mesmo como um hotel, você consegue informações turísticas na recepção, eles tem banheiros públicos e na maior parte das vezes muito limpo, e também lavanderia daquelas de moedas. Muitos tem amenidades como piscina, sala de jogos, lanches, café etc. Pra você ter uma idéia, um dos que a gente vai ficar tem karaoke toda sexta, outro tem ice cream social pras crianças, pula-pula gigante e passeio turístico organizado por eles.

A vasta maioria dos parks aceita animais de estimação, mas alguns tem limites do tamanho de cachorro, ou a quantidade ou raça. Uns são tão bons nesse quesito que até oferecem pet sitting! Teoricamente você pode deixar seu animal dentro do RV com o ar condicionado ligado se você for sair – o ar pode ficar ligado o dia inteiro – mas ouvi muita gente dizer que é comum o ar desarmar e que é perigoso pois a temperatura pode ficar altíssima em pouquíssimos minutos. No inverno pode ser uma boa, ou de noite, mas no nosso caso não vamos levar nenhum dos nossos animais. Mas eu acho o máximo as fotos dos gatos viajando e pegando sol no banco do co-piloto! :)

– a seguir: aprendendo a digir o motorhome e Walla Walla –

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One Response to O Motorhome – Parte 2

  1. Heloisa says:

    Oi Luciana! Que surpresa agradável ver que voltou a postar no seu blog! Espero que continue. Adoro suas histórias. Um abraço a todos. Heloisa. :)

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