Eu já gosto de colocar o pé na estrada. Viajei muito de carro no Brasil (até indo a Argentina e Paraguai) quando criança até meus vinte e poucos, e até hoje são as melhores memórias que eu tenho do Brasil. Eu já era maiorzinha quando fomos até a Bahia e Abrolhos nadar com tartarugas, fui e voltei de Florianópolis (onde morei por um tempo) trazendo uma prancha de sandboard na mala. Tudo de carro.

Acho que na época não tinha muita opção,  além do preço dos vôos serem bem mais caros e o destino – ou falta dele – pra gente era só parte da aventura. Como disse Clark Griswold em Férias Frustradas: “Chegar lá é a metade da diversão. Você sabe disso!”.

E que diversão. Como já se sabe, viajar de carro no Brasil exige uma certa dose de coragem. A rodovia da morte, entre Curitiba e São Paulo, costumava ser chamada assim por motivos óbvios e tinha (será que ainda tem?) uma quantidade tão absurda de buracos, pedaços enormes sem asfalto, que acabava com o carro e com a nossa paciência. Atravessamos – assim, no meio mesmo – de uma manada enorme de bois e vacas, e alguns touros não tão amistosos, com chifres pontudos. Vimos um carro capotar no meio do nada na Bahia e uma família inteira sair voando pelas portas e janelas. Várias crianças, bebê, um horror. Nós paramos pra ajudar com uma caminhonete de lavradores. A avó da família morreu enquanto minha mãe com o bebê deles no colo a levava – na caminhonete dos lavradores – pro hospital. Atravessamos um rio. Nós crianças entramos em pânico no banco de trás, mas você acredita que existe uma estrada em algum lugar no sul do Brasil que só passando no meio de um rio pra continuar? E ainda tinha uns carinhas faturando uma graninha pra ajudar a passar – uma espécie de flanelinha.

Você está aí de olhos arregalados achando que somos masoquistas? Nem perto. Acho que essas estórias fazem parte do que eu e minha família somos hoje. Da parte de resolver problemas quando eles acontecem, da coragem, da falta de frescura. Mas as viagens também tiveram momentos, a maior parte deles, lindos. Nadar em Abrolhos e em Recife de Fora, foi incrível. Nadar com tartarugas, muitos, muitos peixes coloridos, dar comida pra eles na boca no meio do alto mar, pisar em ouriço, ficar cara a cara com uma moréia. Tudo isso faz parte. Parar em cidades que não estavam programadas, ou outras que estavam e que surpreenderam demais – ver um festival tradicional acontecendo assim, inesperado, enquanto tomávamos um suco de pitanga estalando de fresca. Dormimos em lugares nem sempre planejados, um deles tinha um grilo cantando a noite inteira. Descemos nas crateras conhecidas como “Caldeirões do Inferno” em Furnas, com elevadores panorâmicos e gritinhos apavorados. Conhecemos uma pista de esqui perto de Joinville, e tomamos um super farto café colonial com um moleque da cidade que disse que sabia de tudo na região. Abraçamos uma árvore de tronco enorme no meio de uma floresta, e passeamos em um trem daqueles antigões em Paranaguá. Fomos até Foz, onde vimos ninhos de pássaros diferentões e fizemos pedidos com moedinhas. Conhecemos a hidrelétrica de Itaipu quando ainda parecia que nem estava terminada, mas lembro que era tudo muito grande. Tocamos nas incríveis formações rochosas de Vila Velha. Vimos plantações de café e cacau e os caras subindo nos dendezeiros pra catar o fruto do dendê e tomamos picolé artesanal de umas frutas que não conhecíamos. Andamos em ruas e praças de cidades que pareciam saídas da novela Tieta, e fomos muito bem recebidos em todos os lugares que fomos.

Ao meu ver, viajar de carro tem mais vantagens que desvantagens. Claro que dá pra fazer tudo isso indo de avião, mas alugar carro no Brasil pode ser complicado, então você acaba ficando muito restrito às cidades principais, e tem tanta maravilha nos lugares mais distantes! Mas pra tudo isso é necessário muito planejamento e muito tempo, nossas viagens eram de 1 mês. Viajar de carro te dá muita liberdade, e hoje em dia planejar é fácil. Imagine que muitas dessas viagens foram feitas há 20-25 anos atrás e tudo o que tínhamos era um mapa, uma lista de hotéis de trânsito o guia Quatro Rodas, e muita coisa ainda nos pegou de surpresa, vide o rio no meio do caminho.

Então é óbvio que depois que me mudei pros EUA, que eu ía ter planos de fazer umas coisas dessas. Nunca fomos pra muito longe, só viajamos de carro no nosso estado, e estados mais perto como Idaho, Oregon, Montana e Columbia Britanica no Canadá. Mas desde muito tempo que tínhamos uns planos mais audaciosos. Eu tenho que dizer que fiquei muito surpresa quando ouvi gente dizendo “que disposição!” quando contei dos meus planos. Eu realmente não entendo que disposição extra eu tenho que ter pra fazer uma viagem de carro sair, além do planejamento extra. Hoje em dia tudo parece tão mais fácil. O Rob também foi desses que viajou bastante de carro, mas mais na parte leste do Canadá, mas pelo menos ele também não tem medo de estrada, pelo contrário. Sabíamos que isso era uma coisa que tínhamos em comum.

Então qual não foi minha surpresa quando ele chegou do trabalho um dia e contou que tinha almoçado com um antigo chefe/amigo da Microsoft que ofereceu de alugar o Motorhome dele, enorme, pra gente fazer umas viagens. Mas isso fica pro próximo post. :)

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3 Responses to Pé na Estrada – Parte 1 (eu sei, eu sei)

  1. Adriane says:

    Ahá! Então foi assim que começou!

  2. Mieline says:

    Que massa! Minhas viagens com a família, quando criança, eram nesse estilo, entre RJ e nordeste, pois meu pai era mega aventureiro e minha mãe ia na onda. Parecia mais a família buscapé, num Belinão com o banco de trás baixado e colchonetes, três crianças, uma festa! Parávamos em tudo quanto é lugar, passávamos por alguns perrengues, mas as lembranças são maravilhosas mesmo!

  3. GILDASIO says:

    Luciana adorei seus relatos das suas primeiras viagens, Viagei em cada detalhe que você citou. Olha estou pegando algumas dicas de viagem no futuro pretendo viver aventuras como as que você já viveu.
    Parabéns pelos seus comentários e obrigado por compartilhar com o mundo suas experiencias.É DE MAIS.

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