Eu não tinha reparado que estava há 8 meses sem pintar por aqui. Foi um ano corrido até agora, estudando muito. Mas agora só tenho mais 1 semaninha pra acabar e aí vou ter mais tempo. O único problema é que estou com vontade zero de escrever, muito menos vontade de falar sobre a gente. Mas esse blog aberto aqui quase que impõe que eu tenho que escrever e fazer isso como obrigação nunca funciona.

Então penso em transformar ele em algo mais direcionado a saúde da mulher, porque é o campo que estou me aventurando hoje em dia. No início do ano virei voluntária numa prisão de mulheres, e trabalho como Doula. Ano que vem, pretendo entrar num mestrado em Nurse-Midwifery, onde poderei prestar serviços ginecologicos e obstétricos (Exceto cirurgias, mas procedimentos pequenos eu estarei capacitata a fazer) na minha própria clínica e contar ainda com privilégios em hospitais. Escreverei mais sobre midwifery no futuro, mas achei interessante escrever agora sobre o que uma Doula de Prisão faz.

O que é uma Doula?

Doulas são amortecedores afetivos. Funcionam para proteger as pacientes das inúmeras provas, dúvidas, angústias, às quais ela é submetida durante o nascimento de uma criança. (…) O nascimento humano provoca uma gama de sentimentos que normalmente não experimentamos no nosso dia-a-dia. É um momento muito mágico e muito poderoso. Por isso, as pessoas que estão presentes neste momento, são imanadas de uma energia muito especial, que impregna seus corpos e almas com uma luminosidade lilás e brilhante. As doulas, mulheres como as parturientes, são abençoadas com a dádiva da cumplicidade, e recebem como prémio a gratidão eterna.

Dr. Ricardo Herbert Jones, obstetra brasileiro e coordenador da Rede para a Humanização do Nascimento (ReHuNa) no Brasil.

 O que é uma Doula de Prisão? Isso é comum? É igual do lado de fora?

Existem pouquissimos grupos de doulas de prisão nos EUA. O que os grupos fazem em diferentes estados diferem muito, até porque a lei é diferente, os grupos começaram com ideologias diferentes e os contratos são diferentes. Não existe uma regulamentação em comum pra quem trabalha como doula (não é um papel clínico) e muito menos pra quem presta suporte emocional dentro de uma prisão: é mais ou menos oferecer qualquer ajuda pra quem está desprovido de muitos direitos como cidadão.

E por que eu escolhi justamente trabalhar numa prisão em vez de trabalhar com pessoas de fora, e ganhar dinheiro?

Meu interesse é trabalhar pra melhorar um sistema que hoje em dia não oferece na sua totalidade, o básico da existência humana. Um sistema cuja as pessoas saem piores do que entraram e um sistema que convenientemente esquece das regras que eles mesmo criaram. Um sistema que acha que quando um problema é muito grande pra resolver, é melhor então jogar lá no fundo, esquecido, pra que a gente não precise encarar o problema de frente. Um sistema, principalmente, que usa da mão forte pra subjugar quem já nasceu subjugado. Eu acredito que os cuidados médicos e emocionais não deveriam nunca ser opcionais!

Eu diria que hoje em dia eu sou uma reformista, enquanto que trabalho lado a lado com pessoas com ideologias bem mais radicais, e a parceria funciona muito bem. Na verdade, não sei como seria trabalhar sem ter essa união de novas ideias e sem estar debatendo sempre.

E o que você faz como Doula de Prisão?

Nós não trabalhamos no sentido mais tradicional de ser uma doula o tempo todo, até porque a porcentagem de mulheres grávidas na prisão é pequena. Nos fazemos consultas individuais com mulheres de todas as idades, grávidas ou não, na parte da manhã, na clínica da prisão. De tarde, fazemos uma discussão em grupo, no prédio de educação, também com quem quiser aparecer. Nosso grupo sempre tem de 15 a 20 pessoas comparecendo, e recentemente nossa lista de presença chegou nos 25, que é o máximo que a sala pode suportar por questões de segurança.

Nos nossos um-a-um, eu entro com uma cliente numa sala de consulta e normalmente não pergunto quase nada, mas faço anotações de coisas que ela esteja em dúvida no momento, pode ser coisa de saúde da mulher, pode ser coisa de reintegração na sociedade (como pesquisar empréstimos pra fazer faculdade), pode ser coisa que tenha a ver com a guarda dos filhos. Quando volto pra casa, pesquiso aquilo que elas querem que eu pesquise, e trago uma pilha de papeis na semana seguinte, números de telefones de interesse, livros, etc. Muitas mulheres adoram ter esse momento um-a-um com alguém de fora da prisão, pra poderem esvaziar o peito de todas as suas agruras, preocupações, medos… e certamente pra quem está grávida, é uma maneira de ter o tratamento personalizado e sem julgamentos que de outra forma elas não teriam.

As nossas sessões em grupo são sempre muito divertidas mas poderosas! No ínicio do mês fazemos o calendário dos assuntos que vamos discutir o mês inteiro, mas a conversa varia muito. Já até tivemos yoga prenatal – nenhuma das poucas grávidas quis participar, mas foi divertido!), mas normalmente falamos de direitos dentro da prisão, guarda dos filhos, controle de natalidade e muitas vezes a conversa acaba mudando dependendo de quem esteja lá. Nós sempre rimos muito, mas também ficamos tristes e sempre tem alguem que chora.

Quando alguém entra em trabalho de parto, a prisão liga pro nosso doula-phone secreto e nos avisa que a pessoa está indo pro hospital que fica em outra cidade. Nós somos as únicas voluntárias que então, podemos tocar na mulher incarcerada e somente no hospital. Além do suporte do parto e amamentação em si, nós garantimos que a mulher não seja algemada enquanto estiver lá (proibido por lei, mas nem sempre seguido) e que o bebê fique com a mãe por 24h inteiras – direito também assegurado por lei, e muitas vezes esquecido.

Por quanto tempo você vai fazer isso? O que vem pela frente?

Pra sempre, se me deixarem. Estou submetendo a minha aplicação pra entrar num mestrado de Enfermeira-obstetra (ou Nurse-Midwife, mas isso fica pra outro post!) no meio do ano que vem e poder assim efetivamente tentar melhorar o sistema. Nessa nova capacidade, vou tentar assegurar o melhor tratamento e parto pra mãe e bebê de acordo com seus desejos mais pessoas, levando em consideração seus traumas – coisa que não acontece hoje em dia. A maior parte das mulheres tem histórias horríveis pra contar de abuso sexual, de abuso na família, de vidas muito, muito difíceis, e o que eu realmente quero mudar é que elas continuem sendo ainda mais massacradas pelo sistema que não sabe lidar com isso, forçando procedimentos desnecessários e esquecendo outros muito necessarios. Hoje em dia, o sistema carcerário efetivamente acaba agredindo mais ainda essas mulheres que, na vasta maioria das vezes, nunca tiveram uma oportunidade na vida.

 

 

6 Responses to With Women

  1. Mieline says:

    Que bom que vc voltou!
    Estou emocionada com esse post. Sabe, há alguns anos tenho acalentado a idéia de voluntariar um uma prisão feminina, pelos mesmíssimos motivos que os seus. Ainda estou me ambientando na nova cidade que estou morando mas esse desejo fica lá, aguardando para entrar em ação. Como não tenho nenhuma habilidade na área de saúde, o que pretendo é o suporte prático, então achei muito boa a idéia das pesquisas para as detentas. O que tinha pensado de início era um grupo de artesanato, justamente, e principalmente, para das oportunidade de conversas com quem não está preso, sempre imaginei que deve ser bom para elas. Quando eu me inteirar melhor do assunto aqui e começar o voluntariado, gostaria muito de trocar experiências com vc.
    Abraço,
    Mieline

    • Luciana Svilpa says:

      Mieline, eu espero que eu consiga escrever mais daqui em diante! Pelo menos alguém ainda lê isso aqui. ;)

      Eu acho que vc vai gostar muito de começar um grupo na prisão, faça sim! Adoraria trocar experiências! Beijão.

  2. Rosilande says:

    Que Deus te abençõe e lhe sustente nesse exemplo de amor, caridade e fraternidade. Seus lindos meninos sentirão muito mais orgulho quando entenderem o quanto de bem você e seus colegas, fazem, por pessoas tão carentes de atenção.

  3. Helosa says:

    Oi Luciana, que bom que voltou. Eu entrava sempre e até achei que você tinha acabado com o blog.
    Não sei se você lembra de mim. Sou Heloisa, aquela que uma vez seu marido comprou para mim o programa do windowns e gentilmente foi levar no hotel. Uso até hoje.
    Gostaria que você continuasse com o blog. Deve ter muita história para contar trabalhando como doula. Que trabalho dedicado. Continue assim.
    Não precisa colocar fatos da sua vida, se não quiser. Suas histórias mostram realmente a vida do país, coisas que nenhum turista sabe.
    Aborde fatos do cotidiano em geral, temas que só quem vive no país sabe. Um abraço na família.

  4. Elisabet says:

    Olá Luciana,

    Que bom que você voltou, estava com saudades dos seus escritos…sempre entrava pra ver se tinha alguma coisa, mas nada.
    Parabéns pelo seu trabalho voluntário, você é uma mulher muito corajosa e com um coração enorme. Que Deus abençoe você sempre e toda a sua família.
    Beijos

  5. Mari says:

    Eu raramente comento, mas sempre entro pra dar uma olhada nas novidades… Então continue escrevendo!!

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